O Banco Central determinou a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimento, instituição vinculada ao Banco Master. A decisão foi anunciada nesta quarta-feira (21). O grupo Master respondia por cerca de 0,57% do total de ativos e 0,55% das captações do Sistema Financeiro Nacional (SFN). Confira o que os clientes do Will Bank, que possuem dinheiro em contas digitais, chaves Pix, dívidas ou aplicações cobertas pelo FGC (Fundo Garantidor de Crédito), devem fazer.
Segundo o BC, a decisão ocorre “em razão do comprometimento da sua situação econômico-financeira, da sua insolvência e do vínculo de interesse, evidenciado pelo exercício do poder de controle do Banco Master S.A”, liquidado em 18 de novembro. O dono do Master, Daniel Vorcaro, é um dos controladores da Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimento, nome oficial do Will Bank.
Após a liquidação do Banco Master, o Will Bank, que atuava como fintech oferecendo cartão de crédito e conta digital, continuou operando. No entanto, segundo o Banco Central, a manutenção das atividades se tornou inviável após a instituição descumprir, no dia 19, um arranjo de pagamentos da Mastercard, responsável pela operação da bandeira do cartão.
“Tornou-se inevitável a liquidação extrajudicial da Will Financeira, em razão do comprometimento da sua situação econômico-financeira, da sua insolvência e do vínculo de interesse evidenciado pelo exercício do poder de controle do Banco Master S.A., já sob liquidação extrajudicial”, diz a nota.
Em novembro, quando o BC decretou a liquidação do Banco Master e de outras empresas do grupo, o Will Bank havia sido preservado da liquidação extrajudicial. Na ocasião, a autoridade monetária optou por aplicar o Regime de Administração Especial Temporária (Raet) ao Banco Master Múltiplo, controlador do Will, considerando a possibilidade de manter o funcionamento da fintech por meio de uma solução alternativa.
Bloqueio dos cartões
Na última terça-feira (20), a Mastercard comunicou a suspensão dos cartões de crédito emitidos pela instituição. Em nota, a operadora informou que vinha monitorando de perto as operações do Will Bank “para entender como as regras da nossa rede estavam sendo cumpridas, a fim de apoiar os participantes do ecossistema que dependem de seus serviços”. Porém, diante de mudanças no atendimento a essas obrigações e requisitos regulatórios da própria Mastercard, o uso dos cartões foi suspenso.
Clientes do Will Bank têm garantias do FGC após liquidação
Os clientes do Will Bank que possuem dinheiro em contas digitais ou aplicações cobertas pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), como CDBs, receberão os valores devidos até o limite de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, após a liquidação da instituição pelo Banco Central nesta quarta-feira (21). Valores que excedam esse limite e que não estejam protegidos pelo FGC só poderão ser devolvidos se houver recursos disponíveis após a venda dos ativos da financeira.
Acionamento do FGC
Com a liquidação extrajudicial, o FGC passa a garantir o pagamento aos investidores e correntistas protegidos pelo fundo. O benefício cobre tanto o capital aplicado quanto os rendimentos até a data da liquidação. Valores acima do teto de R$ 250 mil ficam registrados como saldo remanescente no banco. O imposto devido sobre os pagamentos será descontado automaticamente, seja pelo banco sob intervenção ou pela corretora responsável pelo investimento.
Rendimentos congelados
Os juros e rendimentos de contas correntes, poupança e aplicações como CDBs são contabilizados apenas até a data da liquidação, ou seja, até esta quarta-feira (21).
Como solicitar o pagamento
Para receber os valores garantidos, o cliente precisa seguir o procedimento do FGC:O liquidante envia a lista de beneficiários ao FGC.
O FGC libera o sistema para que os clientes completem a solicitação da garantia.
Pessoas físicas (CPF) realizam o pedido pelo aplicativo do FGC, enquanto empresas (CNPJ) usam o site do fundo.
Após o cadastro, é necessário assinar digitalmente um termo confirmando a solicitação do pagamento. Pessoas jurídicas recebem o termo após análise dos documentos.
Com os dados bancários conferidos, o FGC realiza o pagamento em até dois dias úteis, diretamente na conta do beneficiário.
Embora não haja prazo definido para o início dos pagamentos, o tempo médio costuma ser de 30 dias, com atualização dos valores pela Taxa Referencial (TR).
Proibição de intermediários
O FGC alerta que não autoriza mediadores ou empresas para intermediar o recebimento dos valores garantidos e que não cobra taxas ou depósitos prévios para processar os pagamentos.
Clientes com dívidas ou chave Pix no Will Bank
A liquidação do Will Bank trouxe mudanças na administração da instituição. Agora, o banco está sob gestão do liquidante nomeado pelo Banco Central, a EFB Regimes Especiais de Empresas, mas continua realizando cobranças referentes a operações com clientes, como empréstimos e faturas de cartão de crédito.
No caso do crédito consignado, as parcelas continuam sendo descontadas diretamente na folha de pagamento e os valores seguem sendo repassados para a conta do banco em liquidação. Para outros produtos, como crédito pessoal, cartão de crédito e financiamentos, o liquidante passará a emitir boletos ou instruções oficiais de pagamento.
As chaves Pix do Will Bank deixarão de funcionar imediatamente, já que a instituição foi retirada do Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI).
Entenda o caso
Sob o comando do banqueiro Daniel Vorcaro, o Banco Master expandiu rapidamente suas operações ao oferecer Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com rendimentos bem acima da média do mercado.
Para sustentar esse crescimento, a instituição passou a assumir riscos elevados e a montar operações que inflavam artificialmente seus resultados contábeis, enquanto a disponibilidade real de recursos para honrar compromissos com investidores diminuía.
Apurações da Polícia Federal e relatórios do Banco Central indicam que a crise do Master ultrapassou o campo financeiro e atingiu a esfera institucional. A relação com a gestora Reag Investimentos, a tentativa de venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB) e a pressão sobre órgãos de fiscalização tornaram o caso complexo e sensível, com impacto direto sobre investidores e sobre a confiança no sistema financeiro.
Entre 2023 e 2024, o banco é suspeito de ter desviado cerca de R$ 11,5 bilhões por meio de operações trianguladas. Os recursos eram emprestados a empresas de fachada, que aplicavam o dinheiro em fundos administrados pela Reag Investimentos.
Esses fundos adquiriam ativos de baixo valor ou sem relevância econômica, como certificados do extinto Banco Estadual de Santa Catarina (Besc), por valores elevados. O Banco Central identificou seis fundos sob suspeita, com patrimônio total de R$ 102,4 bilhões, recursos que circulavam entre estruturas ligadas aos mesmos intermediários até chegar aos beneficiários finais
